Me enche de entusiasmo todas as vezes que ouço dos meus pais as histórias dos movimentos universitários no auge do regime militar. De como as Faculdades de Direito eram sempre cercadas e invadidas por oficiais do DOPS, as aulas eram suspensas e havia sempre ali um ar de revolução cultural (não como a de Mão-Tse-Tung, que servia de cabide político para um líder ditatorial impor à população seus próprios interesses), com uma exótica mistura de um temor angustiante com aquela esperança contagiante. Enchia-se a boca (nas esquinas, é claro!) para dizer que aqueles jovens eram o futuro do Brasil. Estudantes não raras vezes eram presos, alguns eram torturados, e se tinha um lugar que gerava na sociedade daquela época expectativa de mudança, esse lugar era indubitavelmente as Universidades.
Passou-se o regime militar e instaurou-se o Estado Democrático de Direito. E passou também toda aquela geração de estudantes revolucionários. É claro, muita coisa mudou. De um autoritarismo autocrático (que espremia a população à medida que suprimia a liberdade de expressão, entre tantos direitos, sob o argumento de “proteger-nos dos males do comunismo soviético”), passou-se para uma democracia participativa. Porém, os problemas do Brasil não acabaram, só mudaram de endereço. A democracia de hoje não pede mais as revoluções estudantis por maior representatividade popular na gerência do Estado. Atualmente, convivemos diariamente com a corrupção que corróe boa parte dos cofres públicos, com a violência que escraviza as pessoas de bem , e entre vários outros problemas, a má gestão da coisa pública (res publica, de onde vem a palavra República), que inclusive foi apontada como a maior causa do subdesenvolvimento do Brasil, em um relatório da CIA. A República do Brasil passa por uma nova fase difícil de sua trajetória, com um inimigo oculto (às vezes, nem tão oculto assim, a não ser para quem não quer ver!), que nos mata aos poucos sem que percebamos, ou que tenhamos a possibilidade de levantar a nossa voz.
As Universidades nas décadas de 60, 70 e 80 tiveram um papel essencial no contexto em que viveram: a formação política-cidadã de seus alunos. Hoje, as Universidades ainda detém esse mesmo papel, fundamental para a desenvolvimento do Brasil, mas não o fazem. Logo as Universidades, que são chamadas de “celeiro intelectual do país”. Formam-se advogados, médicos, dentistas etc., aptos para exercerem suas profissões, mas sem consciência política do papel democrático que o cidadão tem que ter. Não me refiro aqui à formação de políticos profissionais. Mas desafio as Universidades (especialmente as de Direito) a pensarem um pouco além da “viseira” positivista do Direito advocatício, e a se comprometerem mais com a formação política de seus alunos, de tal forma que se comece nos “celeiros intelectuais do país” um movimento de mudança na sociedade brasileira, mudança na base, de baixo para cima, sem esperarmos uma muleta estatal que faça tudo, como é de praxe do brasileiro que já vem com essa bagagem de visão paternalista do Estado. Só assim teremos mudanças significativas no Brasil.
Robinson Cavalcanti ensina que “politicamente, podemos classificar os indivíduos em: a) alienados: desconhecem os dados mais elementares, não compreendem os porquês dos processos, evitam participar, não conseguem dar significado a seus atos na polis; b) conscientizados: formam a opinião pública consciente, se interessam, procuram se manter informados, fazem opções conscientes, procuram influir; c) engajados: uma parcela dos conscientizados, que procura conduzir os acontecimentos, por vias eleitorais ou não-eleitorais, formais ou informais, pacíficos ou violentos, do Presidente da República a um barbeiro que atua como agente conscientizador, formador de opinião, passando pelos líderes sindicais, estudantis, partidários, etc., e os chamados grupos de pressão.
Um país politicamente desenvolvido tem uma parcela diminuta de sua população alienada, um percentual majoritário de conscientizados e um número significativo de engajados, que representam os diversos segmentos do povo, e onde haja canais estáveis de acesso e participação. Situação atípica é de um país em guerra civil, quando o número de engajados chega a superar os meros conscientizados, acarretando transtornos à vida econômica do país. Os Estados politicamente subdesenvolvidos possuem uma larga base na pirâmide social constituída de alienados, uma faixa intermediária limitada de conscientizados, e uma minoria privilegiada de engajados, representando apenas alguns setores da população. Conscientizar, participar, reivindicar, fiscalizar, sugerir, estabilizando os canais legais, de modo pacífico e decidido, dentro de um pluralismo de posições mutualmente respeitáveis, é contribuir para o desenvolvimento político de um país.”
Creio numa utopia possível. Creio que os problemas do Brasil têm solução, se as mudanças começarem nas bases sociais essenciais, e por um prazo longo de árduas transformações... ... . O Brasil tem um futuro promissor, se pararmos com essas “soluções milagrosas”, paliativas na maioria dos casos, que esperamos do Estado como se fosse somente dele a responsabilidade pelos nossos problemas. O termômetro da saúde do Brasil está na quantidade de conscientizados que o país tem e principalmente os que estão sendo formados. As Universidades estão fazendo a sua parte?
Escrito por Daniel Lança
Por que escrevo?
“Escrevo porque tenho uma necessidade inata de escrever! Escrevo porque sou incapaz de fazer um trabalho normal, como as outras pessoas. Escrevo porque quero ler livros como os que eu escrevo.
Escrevo porque gosto de ser lido. Escrevo porque depois que começo um romance, um ensaio, uma página, sempre quero chegar ao fim. Escrevo porque todo mundo espera que eu escreva. Escrevo porque tenho uma crença infantil na imortalidade das bibliotecas, e na maneira como meus livros são dispostos na prateleira.
Escrevo porque é animador transformar todas as belezas e riquezas da vida em palavras. Escrevo não para contar uma história, mas para compor uma história. Escrevo porque desejo escapar do presságio de que existe um lugar para onde preciso ir mas ao qual – como um sonho – nunca chego. Escrevo porque jamais consegui ser feliz. Escrevo para ser feliz”.
(Orhan Pamuk)
Scripta manent, verba volant (os escritos ficam, as palavras voam)
Escrevo porque gosto de ser lido. Escrevo porque depois que começo um romance, um ensaio, uma página, sempre quero chegar ao fim. Escrevo porque todo mundo espera que eu escreva. Escrevo porque tenho uma crença infantil na imortalidade das bibliotecas, e na maneira como meus livros são dispostos na prateleira.
Escrevo porque é animador transformar todas as belezas e riquezas da vida em palavras. Escrevo não para contar uma história, mas para compor uma história. Escrevo porque desejo escapar do presságio de que existe um lugar para onde preciso ir mas ao qual – como um sonho – nunca chego. Escrevo porque jamais consegui ser feliz. Escrevo para ser feliz”.
(Orhan Pamuk)
Scripta manent, verba volant (os escritos ficam, as palavras voam)
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
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